Como resolver o quebra cabeça do inconsciente.

Passados tantos anos ainda há embates entres estes dois grandes cientistas contemporâneos: Sigmund Freud e Carl G. Jung. Suas opiniões sobre o funcionamento da psique, principalmente na questão da dinâmica da libido e o papel da sexualidade, suas visões antagônicas do mundo, ou seja, suas diferentes “crenças” e “valores”.  E das suas visões opostas acabou gerando duas teorias que podem parecer excludentes, mas que, na verdade, podem ser complementares.

Para Jung não se trata “de afirmar alguma coisa, mas de construir um modelo” que ilustre um determinado modo de observação e que permita um questionamento mais ou menos proveitoso. Já para Freud se acreditava em hipótese superior dominante, a qual, por conseguinte, não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que nos interessa encontra seu lugar fixo.

Percebem-se as grandes diferenças epistemológicas existente entre eles, que são derivadas em parte pelos fatores subjetivos envolvidos nas personalidades individuais de cada um e em outra, pela base teórica utilizada na formação de duas diferentes áreas da ciência: a neurologia (Freud) e a psiquiatria (Jung).

Quando Freud criou sua teoria, alguns fatores históricos aconteciam na Europa, entre eles a intensa repressão sexual. Segundo Jung, havia uma tentativa obstinada de conservar artificialmente, através do moralismo, os ideais que estariam de acordo com a compostura burguesa da época. O “materialismo e racionalismo” científico surgido no séc. XIX é o outro fator histórico determinante, na qual contrapor-se e combate outro sistema de crenças que remontava ainda a um movimento mais antigo: o misticismo e o ocultismo da idade das trevas, ou seja, da Idade Média.

Freud também se contraponha ao ocultismo e afirmava que a psicanálise como uma ciência natural, também demonstrava essa crença no mito iluminista de que a ciência e a razão produzirão a verdade, dando sua ênfase no mundo externo real, principalmente nos traços negativos, tais como a submissão à verdade e a rejeição às ilusões. Dizia que os três poderes que podem disputar a posição básica da ciência: a filosofia, a arte e a religião. Apenas a religião deve ser considerada seriamente como adversária.

Para Freud a religião é tida como um “delírio coletivo” que serve apenas para dar aos homens “informações a respeito da origem e da existência do universo”, assegurando-lhes proteção e felicidade definitiva nos altos e baixos da vida.

A psicanalise da época utiliza o método terapêutico com a finalidade de tratar e curar neuroses. Sua técnica permite que os conteúdos reprimidos que se tornaram inconscientes fossem reconduzidos à consciência, aliviando ou curando os sintomas neuróticos. Para isso, Freud se baseava tanto em fatos empíricos baseados na prática clínica, quanto em “considerações teóricas”.

A “vida sexual do paciente”, ou seja, sua sexualidade é o ponto central de toda psicanálise. Para Freud, em linhas gerais, todos nasceram com uma tendência (ou uma pulsão) que nos leva a buscar o prazer e evitar o desprazer (chamado princípio do prazer). Infelizmente, a realização do prazer sexual pleno encontra diversas barreiras culturais, sendo a principal delas o tabu do incesto. Quando essas lembranças de conteúdos sexuais incestuosos presentes na vida de todas as crianças (complexo de Édipo) são recalcados e banidos da consciência, eles tornam-se inconscientes e perturbam os conteúdos conscientes. E para compreender melhor o funcionamento da pulsão, da libido e o papel do recalque, Freud posteriormente subdividiu a psique em três grandes estruturas chamadas id, superego e ego.

O que caracterizou Freud como um grande revolucionário muito além de seu tempo foi ter descoberto uma via de acesso empírica à psique inconsciente: os sonhos, sendo este um dos pilares centrais que sustenta o edifício teórico da psicanálise freudiana e é sua parte empírica baseada em conceitos referidos diretamente aos fatos reconhecíveis na experiência clínica.

Já Carl Jung, tinha um ponto vista diferente de Freud, também considerava a Psicologia uma ciência natural, mas sua visão da ciência psicológica não tem a pretensão positivista de acreditar em verdades conquistadas para sempre em que outras se acrescentam cumulativamente até um modelo definitivo de realidade. Para ele não é possível pensar em um aparelho mental humano dentro de um sistema fixo, independente da sociedade e da época em que este indivíduo se encontra.

Jung foi além desse paradigma e introduziu dois grandes avanços na psicoterapia moderna: o consciente e o inconsciente coletivo. A psique coletiva é a expressão de um corpo social estudado também pela antropologia, pela sociologia e a história. Dentro desse modelo, não é possível acreditar que a neurose de uma pessoa seja igual à outra quando se vivem em países e/ou culturas diferentes.

Jung abandonou a psicanálise quando percebeu que ela reduzia toda a cultura, seus mitos, arte e religião, a uma mera distorção da sexualidade.

A psicologia de Jung propicia um modelo de compreensão tanto da psique individual e a coletiva e indica que, para o indivíduo manter sua saúde psíquica, ele deve manter uma relação de equilíbrio entre estes opostos. Freud via o inconsciente como uma doença advinda da repressão necessária ao desenvolvimento da vida cultural. Jung via no inconsciente a possibilidade também de cura e harmonia entre os opostos presentes nos conteúdos conscientes e inconscientes, pois o inconsciente possui uma relação de compensação com a consciência, fundamental para manter um equilíbrio homeostático.

A diferença entre eles, como já visto, seria sobre o papel da sexualidade e da libido. Para Jung, a sexualidade de fato é o mais importante, mas não único instinto humano. Um exemplo das diferenças entre eles na aplicação da teoria é na observação do comportamento infantil.  Outra divergência entre eles, é que, para Jung, a psicoterapia é um tipo de procedimento dialético que envolve a relação e um diálogo entre duas pessoas, diferindo da concepção inicial de Freud, “segundo a qual a psicoterapia seria um método aplicável de maneira estereotipada por qualquer pessoa, para obter um efeito desejado”.

Portanto, seu método se diferencia da psicanálise de Freud e do “método educativo” de Adler, pois um enfatiza a sexualidade e o inconsciente e o outro, a tendência ao poder e nas ficções conscientes. Para Jung também, “todas as neuroses podem ser explicadas segundo Freud ou Adler, mas, no tratamento prático, será melhor estudar o caso de antemão, com todo rigor, sendo um erro imperdoável menosprezar a verdade contida nas duas concepções, mas seria igualmente imperdoável escolher uma delas como a única verdadeira”.

Jung vê o problema da neurose como um problema do sentido que o indivíduo dá à sua vida, e só é curada quando a pessoa se torna quem verdadeiramente é, processo que ele chamou de individuação. Esse é o ponto central de sua teoria, junto com o conceito de inconsciente coletivo e arquétipo. O inconsciente possui uma função autônoma e contém um material que necessita emergir. A pessoa deve dar vazão a ele para viver plenamente o sentido de sua vida, pois, caso contrário, sofre de dolorosas neuroses. Comenta que “vivemos imediatamente apenas no mundo das imagens” e é necessário duvidar a legitimidade exclusiva do ponto de vista realista demonstrado pelo pensamento científico.

Jung dizia que nossas experiências acontecem dentro de uma estrutura comum à humanidade, o processo psíquico é real e possui uma função integrativa que acontece mediante a produção de símbolos. A realidade, portanto não seria apenas o comportamento real e objetivo do mundo, nem uma ideia formulada por essas categorias, mas uma combinação dessas duas naturezas num processo psicológico vivo. Os produtos da consciência humana mudam e evoluem com a história e também são relativos aos valores culturais de diferentes culturas, e não de apenas uma única perspectiva universal.

Com seus pacientes psicóticos chegou a resultados empíricos sobre os complexos autônomos, que seriam os complexos e não os sonhos a grande porta para o inconsciente, como acreditava Freud. Estava ciente que os dados recolhidos de seus pacientes, os sonhos e fantasias, estavam sem dúvida sujeitos a uma série de distorções. Ele os considerava como dados empíricos, pois, em sua visão, compreender seres humanos implica em comunicação. Buscava apreender a intenção e o significado de suas palavras e atos. E para compreender esses resultados individuais buscava outra prova: a cultural, ou seja, as atividades publicamente observáveis e registráveis de grupos de pessoas, manifestadas sob as formas de mitos, religiões, arte e literatura.

Portanto, ao enfocar o discurso de seus pacientes (psicóticos ou neuróticos), seus sonhos, trabalhar com a imaginação de forma plástica, ao estudar textos alquimistas, taoístas, hindus, gregos, árabes, gnósticos, cabalísticos e cristãos, Jung procurava observá-los e classificá-los para estabelecer relações e sequências entre os dados observados e demonstrar inclusive alguma possibilidade de predição.

O arquétipo do Si-mesmo ou Self, o cerne e o objetivo da personalidade humana, representa a totalidade de nossa personalidade ainda inconsciente e abrange todos os conteúdos da psique, conscientes e inconscientes. Sua estrutura, por possuir um conteúdo que ainda não se manifestou, é inconsciente e o processo de tornar-se si mesmo é um instinto humano que Jung chamou de Individuação.

Com essa simbologia, o Si-mesmo funciona como um princípio unificador dos opostos dentro da psique humana, unindo as poderosas forças inconscientes na consciência e tornando o indivíduo um ser único e total. Ele é também a mais importante função de orientação que se pode contar, pois durante toda nossa vida, esse instinto nos direciona e prepara para um desenvolvimento da personalidade em direção a uma meta, que é a integração da consciência com o inconsciente coletivo (Individuação) e é onde acontece a união máxima com a totalidade na hora de nossa morte.

Para o neurologista Freud, era natural entender o cérebro como um mecanismo fechado em si mesmo e uma tabula rasa, pois em sua visão de mundo é somente através de estímulos físicos que o cérebro poderia perceber o ambiente a sua volta e chegar a um conhecimento sobre ele. Para o psiquiatra Jung “o homem nasce com sua complicada predisposição psíquica que é tudo menos uma tabula rasa”.

Em sua visão, Jung, diz que  “a psique humana contém inúmeras coisas que nunca foram adquiridas”, na qual o levou a formular o conceito de inconsciente coletivo, que conteria a soma de todos os arquétipos, dando um enorme salto à compreensão que temos da psique e do fenômeno da vida. Para ele, essa parte da psique seria um “poderoso depósito das experiências ancestrais acumuladas ao longo de milhões de anos, o eco dos acontecimentos pré-históricos”.

Jung, por volta de 1928, em suas observações verificou a ocorrência de estranhas “coincidências significativas” entre cenas que surgiam nos sonhos ou em imagens interiores de seus pacientes e eventos que aconteciam ao mesmo tempo na vida deles, Jung deu o nome a esse “acaso” de sincronicidade. A sincronicidade é um fator que postula a existência de um princípio que se poderia acrescentar como quarto elemento à tríade espaço, tempo e causalidade (Jung).

Com esse princípio, Jung tentou resolver um de seus principais questionamentos, que era como acontecia à relação mantida entre a psique e a matéria ou entre ‘a alma’ e o corpo? Também se esforçou para fazer essa unificação, mas foi e continua sendo ridicularizado por todas as outras áreas da Psicologia.

 

Baseado no texto: Algumas diferenças epistemológicas entre a Psicanálise e a Psicologia Analítica e a busca por uma teoria unificada de Frederico Eckschmidt

 

 Aline Sanches – Psicóloga  CRP: 06/76316

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