O pai, o filho e o homem

A criança projeta sobre seu pai a imagem de grande homem. Ela o admira e procura imitá-lo. Na maioria das vezes a imagem do pai permanece idealizada resistindo às provas da vida. A criança, próxima ao seu pai, vai descobrindo um pai mais humano, acessível. A imagem do pai não é mais idealizada, distanciada dele. Seu pai está próximo.

A atual geração nos esmerou por nos dar acesso a segurança material e a instrução, com tudo, este ganho vem acompanhado de um silencio sobre as necessidades mais interiores.

A prática psicoterapêutica permite perceber como os homens são prisioneiros de um silencio hereditário que priva os filhos de um reconhecimento de uma confirmação de sua identidade através do olhar de seu pai. Os pais se refugiam nos bares, no trabalho ou na televisão. Os homens atuais têm poucas ocasiões de viver a atualizar o seu potencial masculino na presença do pai.

A personalidade se constitui e se diferencia po9r uma seqüência de identificações. Para poder ser idêntico a si mesmo é preciso poder em primeiro lugar ser idêntico a alguém, imitando alguém. Esta tendência inata que impulsiona o filho para o pai e o pai para o filho é o que Jung chamou de arquétipo, que governam nosso modo de pensar e agir, assim como o instinto comanda nossos comportamentos.

Os arquétipos são conteúdos que se manifestam em nos sob forma de imagens e idéias, são impessoais e coletivos, tem necessidade de serem personalizados, isto é, experimentados por meio de uma relação.

O recém nascido esta, portanto pré condicionado a encontrar o pai e uma mãe ao seu redor. Para atualizar este potencial, ele deve encontrar alguém, ao seu redor cujo comportamento assemelhasse suficientemente ao de uma mãe e de um pai para começar a ativar sua personalidade.

O resultado deste encontro entre a estrutura inata e cada um dos pais constitui o que Jung chamou de complexo materno ou um complexo paterno.

O complexo tem sempre por centro uma experiência afetiva suficientemente forte para constituir um núcleo que se tornará como ima diante das experiências com as mesmas cores afetivas. O complexo é uma interiorização da relação que tivemos com uma pessoa.

Geralmente, a história do pai é a historia do pai ausente. Trate-se daquele que gostaria de estar lá, mas que não pode por causa das obrigações profissionais. Ou ausente porque mesmo estando fisicamente, ele pensa que somente a mãe deve estar presente junto aos filhos.

Para evoluir um homem deve ser capaz de se identificar a sua me e ao seu pai. O triangulo pai-mãe- filho deve ser substituir a dupla mãe- filho.

Se o pai esta ausente, não há transferência da identificação da mãe para o pai. O filho se torna prisioneiro da identificação com a mãe. Nestas circunstâncias a triangulação não tem chance de acontecer ou acontece mal.

Pela sua simples presença o pai impõe um primeiro elemento de diferenciação. Ele introduz a separação entre mãe e criança. O segundo elemento está ligado à sexualidade. Ao desejar sua mulher o pai se torna homem e coloca um limite na simbiose mãe e criança. Acarreta na criança a frustração e libera um espaço interior.

O pai vai ajudar a criança a ter acesso a sua agressividade: afirmação de si e capacidade de se defender, acesso a sexualidade, ao sentido de exploração, aptidão para abstração e objetivação. Facilitará a passagem do mundo da família para o mundo da sociedade.

A necessidade do pai é uma necessidade arquetípica. Quando não é personalizada pela presença paterna, esta necessidade permanece arcaica, isto é, ligada a imagens culturais do pai forte. Quanto mais o pai ausente, menos haverá chance da criança de humanizar este pai, ficando cada vez mais inconsciente esta idealização, permitindo uma divisão de par de opostos conflitivos da imagem idealizada deste pai, isto é, distante e inacessível sugere o pai forte, já o pai substituto, nunca satisfatório para os ideais da criança é o pai frágil.

A base para uma identidade, para um individuo começa num corpo semelhante ao seu. As relações entre pai e filho na qual o pai se ocupa corporalmente de seu filho, favorecem a eclosão da identidade sexual, descoberta através das brincadeiras, pelos odores do pai, pelo som da sua voz, a maneira como lhe trará a diferença das atitudes de sua mãe.

Quando esta humanização da imagem do pai não tem lugar o filho é condenado a permanecer um filho eterno (puer aeternus). Ele duvidará de sua virilidade ate que tome consciência daquilo que acontece. O homem permanece identificado com sua mãe. Este homem assume a cultura e se encontra identificado aos estereótipos existentes. Ele permanece joguete de seu inconsciente em cima dos modelos sociais. Interiormente dominado por um complexo materno.

Para que o homem consiga mudar precisa afirma-se enquanto homem e não mais como um papel social, permitir mostrar seu lado sombrio para sair da sombra. Mostra o que guardava dentro de si mesmo por medo de ser rejeitado para assim ser respeitado. Tomar consciência do seu lado sombrio vem quebrar seu ideal de perfeição.

Com a psicoterapia, este homem começa a descontruir-se e a desligar-se de si mesmo para assim saborear sua existência. Permitir mais uma mudança de atitude interior do que a mudança de comportamento.

 Referência de texto: O pai – Claude Latry, 1995.

                                                                                Aline Sanches – Psicóloga Clinica

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