O homem e seu sofrimento

O menino, durante sua infância, deposita no pai a responsabilidade absoluta pela sua segurança. No imaginário infantil, este pai tende a ser visto como o herói, o deus, revela aspectos além do pai real: o pai arquetípico.

A dinâmica negativa do arquétipo do pai é marcante na vivência do homem, pois fica sob o sentimento de julgamento de um deus rígido. A ação paterna negativa, se baseada na destrutividade, nos comentários mordazes, no silêncio agressivo, na diminuição das forças egoícas em formação, resultando em perturbações de autoconfiança.

“O pai devora o falo do filho, impedindo que ele tenha acesso ao espírito, que é fundamental para ele ter as próprias características masculinas incorporadas a sua personalidade. A castração patriarcal é a forma como o pai tenta desesperadamente permanecer no poder” (FABRE, 1997).

No arquétipo do pai organiza o pai guardiã, a fortaleza e também o seu lado oposto, o pai devorador , baseado na força da rigidez, do convencionalismo, a submissão a convenções e a experiência das normas do coletivo.

O homem que se forma sob este tipo de arquétipo de pai, tem sua consciência masculina devorada pelo pai, vive associado simbolicamente a um tribunal, destinado a ser tal como se é durante toda a sua vida. Não há individualidade, mas sim regido pelos valores dominantes da consciência coletiva.

O filho do pai devorador se afasta do mundo feminino, da vida criativa, sufoca sua individualidade, afoga Eros, tem muitas relações, mas não tem amigos, tiraniza e tiraniza-se através da ordem e da pontualidade.

Na meia idade, esse homem em seu auge de realizações, é acometido por sensações de revisão da vida que muito lhe incomoda. Começa a perceber a morte para então perceber a vida.

Nem sempre o homem devorado pelo pai acaba sendo o homem do dever, pode-se ser a sua polaridade oposta, sendo o anti-autoritário, o excêntrico, o rebelde. Porém, a vida individual esta igualmente afetada.

As mudanças de papéis do homem e mulher, a novas relações, aparece, também, estar em construção um novo homem, relacionando-se com uma nova mulher. Segundo Jung, os modelos arquetípicos – “o quatérnio do casamento” – o desafio do masculino, em oposição aquele homem que não podia dar espaço social a mulher, buscando uma relação mais apurada com sua anima, enfim, com o feminino em si mesmo inconsciente e com o feminino no mundo.

A partir do encontro incomodo do homem com a sua anima, ele consegue recompor-se da sua obsessão pela competição. O homem que se relaciona de modo cada vez mais consciente com a sua feminilidade inconsciente, se manifestando através da criatividade, imaginação e sensibilidade, representando o homem que questiona os padrões neuróticos de repetição. Porém, as qualidades do masculino em seu pressuposto arquetípico tratam-se da consciência, da importância da temporalidade, do valor da cultura e da tradição.

Outros aspectos arquetípicos masculinos:

1. Puer Aeternus: masculino em nascimento, sem poder objetivo da masculinidade, mas com o recurso da sedução, regido sobre o arquétipo da grande mãe. Espírito jovem e renovador que se opõe a hierarquia masculina.

2. Trickster: masculino emergente, transita entre a masculinidade adulta, com a renovação constante e a sensualidade ativa e dirigida para fora, entre o puer aeternus e o pai.

3. Herói: associado ao rito de passagem, aos elementos estruturadores da consciência masculina, a formação da virilidade.

4. Pai: manifestação o princípio da lei, do permitido e proibido, fundamental para a estruturação do ego. Energia da possibilidade da confiança e da cultura.

5. Velho sábio: referente a reflexão, ao aconselhamento do herói.

A masculinidade amadurecida não é agressiva, dominadora, nem grandiosa, mas sim geradora , criativa e fortalecedora em relação a si mesma e aos outros. A história do desenvolvimento de cada homem é, em grande parte, a história do seu fracasso ou do seu sucesso em descobrir dentro de si esses aspectos da masculinidade madura. O rei, o guerreiro, mago, amante, representam os quatro arquétipos principais do masculino

Todo arquétipo tem a sua sombra, com as suas polaridades – passiva e outra ativa. A sombra e cada um de seus arquetípicos estão ligados a tipologia do sofrimento e percalços do masculino. Levando-se em conta o as sombras do arquétipo do rei, do guerreiro, mago e do amante.

Sombra do arquétipo do rei: Tirano x Covarde:

O covarde denomina-se o pólo passivo do rei da sombra e o tirano o pólo ativo.

O aspecto tirano odeia, teme e inveja o que é novo na vida, percebe o novo como uma ameaça ao próprio reinado, ao controle, não se sente seguro da própria capacidade geradora. Explora e maltrata os outros, recusa a beleza, a inocência, a força, o talento, a energia vital. Teme o contato com o que falta em sua estrutura interior e aterroriza-se de sua própria fraqueza oculta e da sua impotência latente.

O pai tirano costuma atacar a alegria, a força, a capacidade e a vitalidade de seus filhos. Desvaloriza os interesses do filho, de suas esperanças e de seus talentos. Ignora as suas vitórias, tristezas e desapontamentos.

Outra manifestação do aspecto tirano são seus distúrbios narcísicos, se acham o centro e que os outros existem para servi-lo e em vez de espelhar os outros, quer que os as espelhem.

Os sentimentos de tristeza, magoa, insignificância, vulnerabilidade e fragilidade estão ligados aos aspectos da sombra do rei covarde. Este pólo passivo tem ânsia pelo “adorem-me”. Explosões de ira e ataques em direção a quem considera frágil, projetando a sua própria covardia. São homens desconfiados, devido não poder encontrar-se facilmente com as experiências de centramento, de calma e de segurança interiores. Homens que parecem frios, racionais e simpáticos, e subitamente transformam-se numa pessoa totalmente bruta e primitiva, sob enorme pressões do mundo, posso torna-se corrupto.

Sombra do arquétipo do guerreiro: Sádico x Masoquista:

A energia do guerreiro nas relações humanas traz para o homem perturbações importantes. O homem sob a influência do guerreiro precisa urgente ter a mente e os sentimentos sob controle.

Pode-se encontrar dois tipos de crueldade no sádico – uma fria e outra com paixão. Possuído pela bipolaridade do guerreiro da sombra não consegue se firmar legitimamente quanto a sua posição fálica, precisa avançar na luta contra a energia feminina e contra tudo o que lhe parece suave e afeito. Sente aterrorizado com o risco de ser engolido pelo feminino e por isso passa a agir com brutalidade.

Observa-se esse guerreiro destruidor no âmbito de trabalho quando chefe humilha, atormenta e despede injustamente. Nos lares, os sádicos espancam mulheres e crianças. Estar sob este domínio, o homem tem uma percepção diminuída da própria estima, dúvida quanto ao seu desejo, ataca tudo e a todos, inclusive a si mesmo.

O homem que se torna obcecado com o sucesso já é fracassado, e na verdade está tentando com isso reprimir o masoquista dentro de si. O masoquista projeta nos outros a energia do guerreiro e faz o homem se sentir impotente. É incapaz de se defender psicologicamente, permite que o outro e a si mesmo fiquem lhe pressionando, que excedam o limite do que é possível suportar sem perder o respeito por si mesmo. Não sabe quando terminar algo, aceita os abusos e pode explodir sadicamente numa violência verbal e até física.

Sombra do arquétipo do mago: Manipulador x Inocente negador:

O mago da sombra é uma sombra do poder. O manipulador interessa-se e manobrar, em reter informações, em demonstrar superioridade e o quanto sabe. Nas escolas, um professor sobre esse domínio teima em não orientar o aluno, tende a atacar seus alunos e a se opor ao entusiasmo juvenil. Assim como os médicos especialistas que não revelam detalhes importantes da doença do paciente, lhe conferindo o secreto poder do conhecimento, entre outros profissionais.

Numa espécie de distanciamento dos valores humanos, este homem afasta-se da própria vida e não vive, fica preso nos prós e contra, se perde num tortuoso conjunto de pensamentos e de onde não sai facilmente. Temem saltar para a batalha, somente pensam. As vivências prazerosas podem passar para eles sem que alimentam a genuína alegria e o sentimento de gratidão.

O pólo passivo da sombra do mago, as forças do ingênuo inocente, aspira o poder socialmente aprovado do mago, mas não se responsabiliza pelas ações necessárias para encetá-las. Nunca está interessado em fazer o esforço necessário para adquirir o poder de maneira construtiva, pelo contrário, tende a bloquear os outros e a derrubá-las. Manipulam para permanecer inocentes.

O manipulador, trapaceiro prega peças, mente para mostrar a verdade. O inocente, o ingênuo, oculta a verdade para defender seu lugar.

Sombra do arquétipo do amante: Viciado x Impotente:

O homem sob a ação do arquétipo do amante possui energia de vida e de bem estar, mas quando possuído pelo amante da sombra, essa energia gera destruição.

O viciado não consegue compreender porque tem que restringir a sua experiência sensual e sexual. Caracteriza pela desorientação, qualquer sensação advinda do mundo convida-o para for do centro de si mesmo. Não consegue parar de comer, beber, fumar, etc. Tende a viver o prazer do momento. Viciam-se em relacionamentos.

Esta eternamente inquieto, busca aventura, emoção, quebra os limites da sensualidade. Encanta-se com a beleza das partes femininas, mas não sentem a mulher como um todo físico e emocional. Não encaram as parceiras como pessoas completas.

Cada mulher que ele tem o faz confrontar-se com a mortalidade, fraqueza e limitações, desfazendo-se assim o sonho de desta vez encontrar o orgasmo infindável. Quando o entusiasmo ilusório da união perfeita se apaga, ele sai em busca da renovação do seu êxtase. Trata-se do indivíduo adulto filhinho da mamãe, ainda está no interior da mãe, mas luta para sair. Esta precisando aprender a importância dos limites.

O amante impotente vive sem emoções, estéril e monotamente. Há falta de entusiasmo, de vitalidade, de vigor de continuidade. Não se sentem ligados aos outros e nem a si mesmos. Desfaz-se em tédio, em falta de êxtase com a parceira, em ódio reprimido, em estresse no trabalho. Enfim, se desfaz na sensação de estar sendo desvirilizado pelo feminino ou por outros homens em sua vida.

Referência de texto: “Sofrimentos da Alma Masculina: aspectos psicopatológicos do homem numa visão arquetípico, Humberto Oliveira.

                                                                Aline Sanches – Psicóloga Clínica

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